Catedra Português Instituto Camões UEM

OFICINA DE GRAMÁTICA

REGÊNCIA VERBAL: PREPOSIÇÃO “A”[1]

Conceição Siopa (2015)

 INTRODUÇÃO

Entre as diversas áreas problemáticas detectadas nas produções escritas da população universitária em Moçambique[2], seleccionou-se, para esta oficina gramatical, a regência de complementos verbais que envolvem o uso da preposição a.

Nesta área, podem destacar-se três tipos de dificuldades. Por um lado, há a tendência para usar como transitivos verbos que, no português europeu (PE), seleccionam complementos preposicionados (cf. (1)). Neste caso, adopta-se a estrutura [V SN] para verbos que no PE têm a estrutura [V SPa]. Por outro lado, observam-se casos, em que se adopta a estrutura [V SPa] para verbos que no PE são transitivos e subcategorizam complementos nominais [V SN] (cf. (2)). Por último, foram ainda detectadas frases em que é seleccionada uma preposição diferente da que é requerida pela norma europeia (cf. (3)). Neste caso, a estrutura adoptada é [V SP], tal como no PE, residindo a dificuldade em seleccionar a preposição a, requerida pela norma europeia.

Exemplos:

(1) O namoro não obedece [SN nenhum critério]. (PE =... a nenhum critério)

(2) Esta atitude pode incentivar [SP aos criminosos] a cometerem mais crimes. (PE =… os criminosos)

(3) A minha infância remonta [SP de 1980]. (PE = … a 1980)

O conjunto de actividades e exercícios que a seguir se propõe toma como base os problemas acima descritos e apresenta uma proposta de abordagem gramatical, sob a forma de “oficina gramatical”[3]. Este modelo de ensino enraíza-se numa concepção de ensino-aprendizagem da gramática, com foco-na-forma, centrada no aprendente. Dirige-se ao desenvolvimento de atitudes de consciencialização das regras que regem a realização das estruturas mais atingidas pelos desvios. Neste caso, concilia-se uma perspectiva descritiva, reflexiva e de manipulação de dados reais, com uma perspectiva prescritiva de ensino da norma da língua-alvo. Esta estratégia possibilita, assim, a combinação entre um ensino explícito das regras gramaticais, através de informação (directa ou indirecta) sobre o erro, e um ensino implícito, de reforço da oferta linguística, através do qual se expõem os estudantes a frases (ou textos) contendo muitos exemplos da estrutura-alvo[4]. Reforça-se, assim, o contacto com as formas das estruturas gramaticais problemáticas para a população alvo, e orienta-se a sua atenção para as regras gramaticais que regulam o seu uso.

A oficina gramatical que aqui se apresenta tem os seguintes objectivos:

i) Promover a consciencialização dos estudantes relativamente à regência de complementos verbais pela preposição a.

ii) Sistematizar conhecimentos gramaticais sobre o padrão sintáctico analisado.

iii) Criar mecanismos conscientes de auto-edição e revisão de texto.

iv) Promover o uso de estruturas de regência verbal de acordo com a norma europeia.

Esta oficina desenvolve-se em três fases: uma primeira fase em que é feita a manipulação dos dados, uma segunda fase em que se analisam os dados através da gramática explícita e, finalmente, a terceira fase em que se aplicam as regras gramaticais a novas situações. Veja a Oficina Gramatical

Para facilitar a aplicação da oficina, apresenta-se, em seguida, um guião de trabalho onde se fornecem instruções para a sua utilização didáctica.

Para garantir a monitoria e a avaliação na resolução dos exercícios aqui propostos, podem consultar-se os "guiões de correcção". Veja os Guiões de Correcção.

 

FASE I – Leitura do texto «Tsunami»

A primeira fase desta oficina – Grupo A, actividades 1 a 3 – inclui a leitura, compreensão do texto e a realização de actividades de selecção, recolha e organização de dados. O texto, produzido especificamente para esta oficina, permite que os estudantes observem, descrevam e detectem regularidades no formato dos complementos verbais regidos pela preposição a, dado o grande número de estruturas nele contido, em que esta preposição é usada. Há também contacto com outros tipos de complementos que permitem a exploração de tópicos gramaticais relacionados entre si (p. ex., complementos de verbos transitivos directos e indirectos e construções passivas).

 

FASE II – Gramática Explícita

Nesta segunda fase, – Grupo B, actividades 4 e 5 – propõe-se que os dados retirados do texto sejam analisados pelos estudantes, de modo a possibilitar a explicitação das regras e a elaboração de generalizações sobre as estruturas-alvo. Pretende-se que, com a consulta de uma gramática[5], os estudantes possam detectar a diferença entre complementos seleccionados por verbos transitivos directos e verbos transitivos indirectos, e que esta consulta os ajude também a captar a ligação entre os padrões sintácticos dos verbos das frases observadas e a norma europeia prescrita na gramática. Por outras palavras, espera-se que a consulta da gramática ponha os estudantes em contacto com definições e regras sobre os seguintes tópicos: verbos transitivos directos e indirectos; funções sintácticas desempenhadas pelos complementos verbais dos verbos transitivos directos e indirectos; e construções passivas.

 

FASE III – Exercícios de Aplicação

Após o trabalho desenvolvido nas fases anteriores, a terceira fase da oficina gramatical – Grupo C, questões 6 a 10 – destina-se à aplicação dos conhecimentos adquiridos. Para atingir este objectivo, apresentam-se alguns exercícios que treinem e consolidem a aprendizagem desenvolvida nas etapas anteriores desta oficina. Neste contexto, os exercícios são direccionados para o treino das estruturas-alvo, através de testes verdadeiro/falso (exercício (6)) e produção de frases em que ocorrem verbos previamente seleccionados (exercício (7)). Para além destes exercícios, propõem-se ainda exercícios de explicitação de regras gramaticais (exercício (8) e (9)), e exercícios que requerem a formulação de juízos de gramaticalidade (exercício (10)).

 

Referências

Cunha, C., & Cintra, L. (2001). Breve gramática do Português contemporâneo. Lisboa: Edições João Sá da Costa.

 Duarte, I. (1992). Oficina Gramatical: Contextos de Uso Obrigatório do Conjuntivo. In Para a Didáctica do Português: Seis Estudos de Linguística (pp. 165-177). Lisboa: Edições Colibri. 

Ellis, R. (1997). SLA research and teaching. Oxford: Oxford University Press.

Ferris, D. (2002). Treatment of error in second language student writing. Ann Arbour: The University of Michigan Press.

Gonçalves, P. (2010). Perfil linguístico dos estudantes universitários: Áreas críticas e instrumentos de análise. In P. Gonçalves (Ed.), O português escrito por estudantes universitários: Descrição linguística e estratégias didácticas (pp. 16-50). Maputo: Texto Editora. 

Gonçalves, P., & Vicente F. (2010). Erros de ortografia no ensino superior. In P. Gonçalves (Ed.), O português escrito por estudantes universitários: Descrição linguística e estratégias didácticas (pp. 51-72). Maputo: Texto Editora.

Siopa, C. (2006). Ensino do português na universidade em Moçambique: Trabalhos oficinais de gramática. In F. Oliveira & J. Barbosa (Eds.), XXI Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística: Textos seleccionados (pp. 659-674). Lisboa: Associação Portuguesa de Linguística. Disponível em: http://www.apl.org.pt/actas/xxi-encontro-nacional-da-associacao- portuguesa-de-linguistica.html

Siopa, C. (2010). Estruturas problemáticas e estratégias de ensino do português na universidade. In P. Gonçalves (Ed.), O português escrito por estudantes universitários: Descrição linguística e estratégias didácticas (pp. 73-103). Maputo: Texto Editora.


[1] Versão revista de Siopa (2006)

[2] Para uma visão panorâmica das dificuldades desta população, veja-se Gonçalves (2010) e Gonçalves e Vicente (2010).

[3] Veja-se Duarte (1992) sobre as características gerais de uma oficina gramatical.

[4] Para mais informações sobre a questão dos erros gramaticais e sobre estratégias de ensino da gramática, vejam-se Ferris (2002) e Ellis (1997).

[5] Para alcançar este tipo de objectivo, sugere-se a consulta da gramática de Cunha e Cintra (2001).